Ela achava que tinha tudo resolvido. Sempre se achou tão independente. Era virginiana, mas chegou à conclusão de que não acreditava em astrologia, porque não se encaixava em nenhuma descrição do seu signo. Se definia como um espírito solto, que não se prendia a nada nem ninguém, que não conseguia se apegar. Por isso gostava tanto de "500 Dias Com Ela" e "Bonequinha de Luxo", se enxergava na Summer e na Holly, mas achava que seu final seria diferente: que não, ela nunca ia achar alguém e se aquietar na vida como as suas duas personagens favoritas.
Ela também achava que passava pras pessoas a ideia que ela queria ter de si mesma: uma menina culta, super inteligente, que devorava livros interessantes e sabia um pouco de cada de tudo, dedicada e esforçada, que sabia de filosofia e de psicologia e podia falar desses assuntos com propriedade. Ela também queria ser aquele tipo de mulher misteriosa, que sempre tem algo a mais a ser descoberto. Ela achava seu gosto musical refinado e diversificado e se orgulhava disso. Ela amava pessoas diferentes e queria muito ser uma delas, daquelas que se destacavam na multidão, que chamavam atenção. Ela queria intrigar aqueles que entravam em contato com ela.
Parece maravilhoso viver uma ilusão. Encarar só aquilo que te convém e achar que tudo funciona do jeito que você quer. Só que bolhas são frágeis, e mais cedo ou mais tarde, a que você decidiu viver dentro, vai, sim, estourar. O mundo é muito eficiente em dar tapas muito fortes em quem não quer enxergar a realidade. A vida nunca é aquilo que a gente idealizou, perdão jogar isso na sua cara.
A independência que ela achava que tinha pareceu desaparecer diante da decisão de querer morar sozinha, mudar de cidade. Mas o que é que ela ia fazer num lugar totalmente novo, sem nenhum ombro amigo, nenhum traço de familiaridade? E arrumar a casa? E conseguir se localizar num ambiente estranho? Emprego? Quê?
Aí, no dia-a-dia, a nossa amiga caiu na real e descobriu que sim, infelizmente, coincidentemente ou não, os astros estavam certos. Ela, que se gabava de ser espontânea, desorganizada, livre, aventureira, passou a se enxergar como aquela chata certinha, que cumpria todos os horários e ficava p da vida com quem se atrasava, que não gostava de arriscar e só comia os mesmos pratos e ia aos mesmos lugares, que perdia a cabeça com qualquer detalhe que não ia conforme seus planos e nem coragem pra furar uma fila tinha. Desceu pelo ralo o sonho de aparentar ser a garota meio louca que faz o que der na telha e não tá ligando pro que os outros falam... Que pena, afinal, é tão mais legal ser assim, né?
Pois é, mas nossa amiga também descobriu que sim, seu destino acabou sendo como o de suas personagens favoritas. Espírito solto? Não, não. Apenas não tinha se apaixonado. E quando isso aconteceu, BOOM. Ela se encontrou lá, quietinha, esperando seu amor ir buscá-la pra tomar um sorvete ou ir ao cinema. Ela se encontrou completamente dependente de alguém, coisa que declarava à plenos pulmões que nunca, repetia, nunca aconteceria. A gente sempre acha que se conhece demais até que vem esse destino maroto e nos mostra que nada é como a gente prevê.
Decepção mesmo foi quando ela começou a se enxergar pelo que realmente era: nem metade tão interessante quanto pensava ser. Os livros super interessantes? Eram romances, alguns ainda adolescentes, enquanto tanta gente que usa aquelas armações de óculos vintage tava lendo Nietzshe e Dostoievski. Ela não podia falar com propriedade de Psicologia, porque largou a faculdade por falta de dedicação e esforço, ou por falta de saber o que quer da vida. Aposto que qualquer um podia decifrá-la em alguns minutos... E sobre seu gosto musical, o que tinha de especial nisso? Tanta gente conhecia milhares de bandas independentes que faziam sucesso num cenário muito cult e restrito, e ela sabia até música do One Direction decorada.
Talvez querer enxergar o mundo da maneira mais seca e rude que existe faça mal, talvez um pouco de enfeite nessa realidade nos faça encarar a rotina com mais ânimo. Acontece que, enquanto não nos depararmos com a verdade nua e crua sobre nós e sobre tudo, não há espaço para evolução. Sim, talvez essa dose de amargura tenha a feito mais fraca, mas agora é o momento de evoluir. Você pode ficar com os olhos ardidos e vermelhos por causa de toda a sujeita que a vida joga neles. Mas acredite, o tempo serve de colírio... Talvez até um pouco de lágrimas. O bom é que, depois, você passa a ver com muito mais clareza que antes.
E agora, o que ela quer, é não ficar só na imaginação, é fazer acontecer. Ela quer se tornar a pessoa que ela achava que era. E aí, meu amigo, quando você percebe isso, não tem mais erro. Aliás, tem espaço pra errar no meio do caminho, mas pelo menos, o caminho, agora, você já encontrou.
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